Ah, Brasil. Onde até a solidariedade tem desconto automático e sem devolução.
Você piscou, o tempo passou, e o INSS “esqueceu” de avisar que estava te cobrando uma taxa sindical por três décadas. Sim, três. Décadas. E foi assim que a Dona Lidia, 84 anos, analfabeta, moradora de Humaitá (interior do Amazonas), descobriu que vinha sendo vítima de uma assinatura involuntária desde a época em que “Bambolê” ainda passava na Globo.
A saga começa em 1978, quando ela passou a receber pensão após a morte do marido. Desde então, com nove filhos pra criar e salário mínimo pingando na conta, ela ralava como faxineira na prefeitura até 1997, quando o coração pediu trégua. Só que enquanto ela lavava chão e criava filho, uma rubrica chamada “consignado” foi se achegando sorrateiramente no extrato do benefício. Começou humilde, cobrando R$ 2 por mês. Em 2025, já estava em R$ 30,36. Um total de R$ 4.194 drenados — sem correção, claro, porque golpe que se preze não vem com inflação.
“Assina aqui pra ajudar a prefeitura”
Lá em 1994, o prefeito pediu um favor: “Assina esse papel aqui”. A dona Lidia, mulher de boa fé, assinou. Mal sabia que estava autorizando o desconto sindical para a tal Contag — uma confederação que representa sindicatos rurais. Nunca foi informada que o papel significava abrir a carteira por 30 anos em nome de uma suposta filiação. Afinal, quando alguém diz “assina pra ajudar”, quem é que pensa que está prestes a virar sócio-fundador de um clube sindical?
A revalidação que nunca veio (mas foi prometida, juramos!)
Em tese, o INSS deveria checar periodicamente se as pessoas ainda querem ter desconto. Em 2019, o governo até disse: “Vamos revisar isso anualmente!” Aí o Congresso respondeu: “Três em três anos tá bom demais.” Mas… nem isso. Porque em 2022 enfiaram um “jabuti” (termo técnico para “pauta que não tem nada a ver com o assunto, mas vai junto mesmo assim”) numa medida provisória qualquer e… puf! A obrigação de revalidação evaporou.
Enquanto isso, o Tribunal de Contas da União (aquele primo nerd que sempre avisa dos problemas antes de dar ruim) alertava: “Galera, tem fraude rolando solta!”. O TCU pediu: “Revalide tudo em 60 dias”. O INSS respondeu como quem recebe prazo de TCC e diz: “Impossível, chefe. Melhor jogar essa bomba no colo do aposentado.”
A proposta mágica do INSS: “Faz você mesmo”
A cereja do bolo: sugeriram que as próprias entidades suspeitas de fraude enviassem os documentos pelo app Meu INSS, e os aposentados — muitos deles analfabetos ou idosos sem acesso digital — validassem as assinaturas por lá mesmo. Tipo um Faça Você Mesmo, só que com sua aposentadoria em jogo.
Resultado? Até hoje nenhuma revalidação foi feita. Os descontos seguiram firme e fortes, como boleto no dia 5. E a dona Lidia só descobriu o rombo graças ao neto, Natanael, que resolveu investigar o extrato da avó em plena onda de escândalos que varre o INSS — aquela autarquia que cuida do nosso futuro com tanto carinho e precisão quanto um padeiro bêbado fazendo croissant.
Conclusão?
Se você recebe aposentadoria ou pensão, vale dar aquela olhada básica no extrato. Porque, vai saber… talvez você também esteja “ajudando a prefeitura” desde 1994.