Porque se tem uma coisa que a política argentina não perde, é a capacidade de nos entreter.
Se política fosse novela, Buenos Aires teria vivido neste domingo um daqueles capítulos em que o vilão carismático dá a volta por cima, o mocinho perde o protagonismo e metade do elenco simplesmente não aparece pra gravar. Sim, estamos falando da eleição legislativa que sacudiu a capital argentina – ou pelo menos tentou, porque 47% da população disse: “ah, deixa pra lá”.
Com ares de “plot twist” em série política da HBO, o partido do presidente Javier Milei, o La Libertad Avanza (LLA), venceu a eleição na capital federal e, de quebra, derrubou uma dinastia de 18 anos do partido Proposta Republicana (PRO). Ou seja: fim de uma era, início de outra – agora com muito mais memes, motosserras e inteligência artificial duvidosa.
Quem puxou o trenzinho da vitória foi o porta-voz oficial do governo e aspirante a político de Instagram, Manuel Adorni, que cravou 30,13% dos votos, deixando pra trás Leandro Santoro (27,35%) e Silvia Lospennato, do combalido PRO (15,92%). A cidade, que sempre teve cara de caderno de direita liberal, resolveu experimentar o tempero libertário com toque de anarcocapitalismo. Vai que cola.
Abstenção, a verdadeira campeã
Mas o verdadeiro vitorioso, como todo argentino de boteco já suspeitava, foi o sofá. Com uma abstenção recorde de 47%, mais da metade dos eleitores decidiu que votar no domingo era tão interessante quanto assistir a reprise de novela venezuelana dos anos 90. Talvez seja cansaço. Talvez descrença. Ou talvez seja só um baita bode de tudo isso mesmo.
Fim da era PRO: Macri em crise existencial
O velho e conhecido PRO, que já dominou 14 das 15 comunas da capital em 2021, desta vez saiu de mãos abanando. Um vexame que deixou o ex-presidente Mauricio Macri num dilema shakespeareano: “Ser relevante ou sumir de vez?” Seu retorno à cena política foi mais apagado que aniversário em feriado nacional. E o partido, sem rumo e sem narrativa, foi atropelado pela retórica de “contra tudo e contra todos” do Milei.
Pra piorar, teve até vídeo fake do Macri circulando, elogiando a candidata do PRO e metendo pau no kirchnerismo – mas feito por IA, claro. O vídeo foi derrubado, mas não antes de cumprir sua nobre missão de confundir geral.
E o peronismo? Tá vivo, mas mancando
Leandro Santoro até tentou defender o bastião kirchnerista, mas não foi suficiente pra superar a máquina libertária. Ainda assim, aliados do peronismo conseguiram manter sete comunas na capital. É tipo perder o jogo, mas sair com a bola.
A esquerda e os figurantes
A galera da esquerda também conseguiu um espacinho: Vanina Biasi, da Frente de Esquerda e Unidade dos Trabalhadores, pegou a última cadeira legislativa como quem pega o último ônibus da noite – no sufoco, mas chegou.
Já Horacio Rodríguez Larreta, ex-prefeito e agora figurante de luxo com o movimento “Volvamos Buenos Aires”, vai voltar ao palco político tentando um remake da própria carreira. Boa sorte, hermano.
Próximos episódios: Misiones e Formosa
Essa foi só a quinta eleição local no calendário argentino. O LLA já venceu duas (Chaco e Buenos Aires), e os próximos capítulos prometem mais emoção: em Misiones (8 de junho) e Formosa (29 de junho). Prepare o chimarrão, o Twitter e o gerador de memes.