Léo Lins e os horrores do Gulag: quando o Estado decide o que você pode ou não dizer, o risco é perder a liberdade… e a humanidade.

“Fui presa por contar uma piada”: da Sibéria stalinista aos tempos modernos — mudou alguma coisa mesmo?

Vamos lá. Antes de mais nada: não, você não está lendo uma ficção distópica escrita por Orwell ou um roteiro sombrio da Netflix. Essa é a história real de Vera Golubeva, uma senhora russa que, em 1951, foi enviada para a Sibéria por um “crime” gravíssimo: contar uma piada.

Sim, amigo leitor, uma piada.

Vera, professora de história, foi considerada “inimiga do povo” e foi parar em um campo de trabalho forçado no meio da Sibéria, onde o frio chegava a -56°C, ou, como dizemos por aqui, um frio de lascar que não dá nem pra soltar pum sem virar gelo seco.

Ela sobreviveu seis anos construindo trilhos de trem, cortando madeira e lutando contra a fome, que era regulamentada com precisão militar: quem rendia pouco, comia menos. Vera era da cidade, então seu desempenho com o machado não agradou muito: sua ração foi reduzida a 300 gramas. “Mas eu era durona, pelo menos psicologicamente”, contou ela, hoje com 98 anos, caminhando lentamente, mas firme, apoiada numa vareta, como quem carrega não só o corpo, mas a memória do que viveu.

Quando o humor vira sentença

Pausa dramática: sim, ela foi presa por uma piada.

Agora respira fundo e pensa comigo: Vera, 74 anos atrás, Léo Lins, 2025. Distantes no tempo, mas colados na essência: a repressão contra o humor que incomoda.

Claro, não estou dizendo que o Brasil de 2025 é a União Soviética de Stálin. Por favor, não vamos perder a sanidade aqui. Mas a lógica por trás da censura é universal: quando quem está no poder (seja político, social ou midiático) decide que algumas palavras são perigosas demais para serem ditas — ou ouvidas —, o riso passa a ser um risco. O palco vira palanque. O microfone vira mordaça.

A diferença? Hoje não te mandam construir ferrovia na Sibéria (não ainda…), mas te colocam na cela da execração pública, bloqueiam seus perfis e, com sorte, abrem um inquérito pra te lembrar quem manda no roteiro da sociedade.

Memoriais, memes e amnésias coletivas

Na Rússia, ergueram agora o “Muro do Pesar”, um monumento colossal com 30 metros de extensão, financiado parcialmente pelo governo e por doações. Ele homenageia as vítimas da repressão soviética: milhões de mortos, desaparecidos, deportados ou simplesmente destruídos por ousarem pensar diferente, falar diferente, rir diferente.

O artista Georgy Frangulyan fez a obra sem rostos: formas humanas irregulares, curvadas como foices, para lembrar que a máquina estatal engole gente sem perguntar nome nem motivo. Basta ser “errado”. E como sabemos, quem define o que é “errado” costuma ser justamente quem não deveria ter esse poder.

Por aqui, nossa arte memorial muitas vezes se resume a memes que viralizam rápido e morrem mais rápido ainda. Trocamos o mármore eterno pelo post efêmero. Mas o desconforto é o mesmo: por que falamos tão pouco sobre os abusos do passado — e tão pouco também sobre os abusos do presente?

O humor é resistência. Ou deveria ser.

Vera perdeu sua juventude, seu marido, seus pais e até o bebê que carregava quando foi capturada. Sobreviveu, mas ao custo de ter visto de perto como o Estado, quando quer, é implacável. Sua fala, aos 98 anos, ecoa como um grito que não envelhece:
“O que aconteceu precisa ser exposto, para que não se repita.”

Pois é. Mas será que aprendemos?

Enquanto isso, uma parcela crescente na Rússia tenta reabilitar Stálin como herói nacional. Aqui, há quem também queira reabilitar a ideia de que comediante “tem que ter limite” e que certas piadas são “crimes”. Parece que as espirais da história realmente giram — e, como lembrou Vera, às vezes para o lado mais sombrio.

E então? Vamos rir ou chorar?

Não se iluda: piadas incomodam. Sempre incomodaram. O humor é a última trincheira contra a opressão, porque expõe o ridículo onde ele quer parecer solene. É o alfinete na bolha de poder. É por isso que quem quer calar bocas começa querendo calar os risos.

Mas enquanto houver quem ria, quem conte piadas, quem faça reflexões ácidas como esta aqui, ainda há esperança de que não sejamos todos peças curvadas num muro de bronze, sem rosto, sem voz.

O Muro do Pesar é um lembrete de que quem esquece o passado está condenado a… ser preso por uma piada.

Ou cancelado.

Ou demitido.

Ou bloqueado.

Mas, cá entre nós, antes ser bloqueado do que bloqueado da própria consciência, né?


Reflexão final:
O problema nunca foi a piada. Sempre foi quem tem o poder de decidir quem pode — ou não — rir.